"A Santa" ou "A Sabedoria"

Eu bem disse que as coincidências na minha dissertação não iam ficar por aqui. E esta até é muito curiosa.

Há uns meses, andei às voltas com umas figuras que aparecem na porta do quarto de Belle, à procura de uma imagem a que as associar. Pois bem, ontem estava eu a folhear a Sete e dei com a escultura mais parecida com estas figuras enigmáticas de todas as que procurei. Ora vejam lá.

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20080711-reitoriaA última imagem é a da homenagem aos estudantes caídos na I Guerra Mundial, foi feita por um português chamado João Silva e está na Reitoria da Universidade do Porto.

Como é que, depois de procurar em todo o lado, vou acabar a encontrar a representação mais parecida em Portugal? E como é que isto pode encaixar num filme feito nos Estados Unidos, por americanos?

(Sofia a dar em doidinha, versão 2.0)

Bimbettes

Já cheguei àquele ponto na dissertação em que começo a ver padrões em todo o lado. Hoje vi que os botões do Mac são pequenas Bimbettes. O que virá a seguir?

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Já agora, se alguém vir a minha sanidade mental, digam-lhe que ela está a fazer-me falta.

20 e qualquer coisa

Às vezes é assustador fazer as contas e pensar no tempo que já passou desde que os anos "teen" acabaram. Dou por mim a dizer coisas do género "Espera, eu acabei mesmo o liceu há quatro anos? O último livro do Harry Potter já foi lançado há seis?! E o primeiro Rei Leão faz 20 anos para o ano? Tenho colegas da escola básica que já vão a caminho do segundo filho? Mas... mas... que raio se passa?"

E como se olhar para trás não fosse suficientemente assustador, olhar para a frente é bem mais crítico. Vem logo o discurso do "Como é que vou arranjar emprego com uma taxa de desemprego jovem nos 40%? Onde é que vou arranjar dinheiro? De que é que vou viver? Quem é que vai estar comigo? Para onde irão os meus amigos? Será que vou casar? Vão dar corda ao relógio biológico? O quê, crianças? Ainda outro dia eu acordava mais cedo para ver desenhos animados! Oh, quem é que eu estou a tentar enganar? Eu ainda vejo desenhos animados."

E depois sou só eu ou vocês também têm a sensação que vos estão a amarrar uma corda ao pescoço quando alguém mais velho diz: "Oh, que bela idade que tu tens! Aproveita, que esses anos não voltam!". Que querem dizer com isso, que a partir de agora é tudo a piorar?

Sejam, pois, bem-vindos à minha caótica mente. Estes são exemplos de alguns daqueles medos que julgamos ser os únicos a ter mas que, no final de contas, são tão comuns que até nos fazem pensar: "bolas, que falta de originalidade da minha parte".


Isto porque tropecei num texto que se chama mesmo Síndrome dos 20 e poucos anos e constatei que, realmente, se me sinto angustiada, não estou sozinha.


Lembrei-me logo também de que os 22 anos são uma espécie de idade mágica, para o bom e para o mau. Não me tinha apercebido disto antes de os fazer, mas vai desde o John Mayer a dizer "It's been a long time since 22", à Lily Allen a lembrar "When she was 22 her future looked bright", passando pela Norah Jones a dizer com melancolia "She’s 22/And she’s loving you/And you’ll never know how it makes me blue", e pela Katie Melua que suspira "Feeling 22, acting 17", e provavelmente outros de que agora não me lembro.*


Ainda assim, a letra que acho que resume melhor esta fase estranhamente desconfortável e irresistível é a de Twenty Something. Mas, antes que acabe o texto e dê a palavra ao Jamie Cullum, deixem-me só dizer-vos que não acho que os 20 anos sejam uma instituição. Já estamos tão cheios de regras e de "deves ser assim e não assado" que pôr mais um rótulo em cima dos outros todos é inútil e desajustado. Apesar de me sentir melhor com a ideia de que não estou sozinha com o meu sentimento de angústia, gosto também de acreditar que se me apetecesse ter filhos agora, fazer um inter-rail aos 50 e casar aos 80, podia. E isso não faria com que eu estivesse errada, pois não?







After years of expensive education
A car full of books and anticipation
I'm an expert on Shakespeare and that's a hell of a lot
But the world don't need scholars as much as I thought

Maybe I'll go travelling for a year
Finding myself, or start a career
Could work for the poor, though I'm hungry for fame
We all seem so different but we're just the same

Maybe I'll go to the gym, so I don't get fat
Aren't things more easy with a tight six pack?
Who knows the answers, who do you trust?
I can't even seperate love from lust

Maybe I'll move back home and pay off my loans
Working nine to five, answering phones
But don't make me live for my Friday nights
Drinking eight pints and getting in fights

I don't want to get up, just let me lie in
Leave me alone, I'm a twentysomething

Maybe I'll just fall in love
That could solve it all
Philosophers say that that's enough
There surely must be more

Love ain't the answer, nor is work
The truth elludes me so much it hurts
But I'm still having fun and I guess that's the key
I'm a twentysomething and I'll keep being me

I don't want to get up
Let me lie in
Leave me alone
I'm a twentysomething

*Músicas referidas (por ordem):


Who Says, John Mayer, Battle Studies, 2009
22, Lily Allen, It's Not Me, It's You, 2009
She's 22, Norah Jones, Little Broken Hearts, 2012
Closest Thing To Crazy, Katie Melua, 2008

Última hora: somos uns grandecíssimos narcisistas (aparentemente)

Lá de vez em quando, no meio do estudo ou depois de acordar de uma noite mal dormida porque um dos professores do semestre se lembrou de lançar trabalhos à última da hora porque "a avaliação é contínua e ainda não tenho elementos que cheguem", uma pessoa vai lendo uns disparates. Há que aliviar a tensão, certo? O pior é quando a coisa se torna tão idiota que a tensão passa rapidamente a irritação... Se não fosse verdade, até tinha piada.

Estou a falar de uma capa da Time que tem andado a circular por aí faz já algum tempo. O artigo é do início de Maio e o autor Joel Stein. A notícia? Somos a "me me me generation" (a "eu eu eu geração"?). O pouco que consegui ler na internet diz o seguinte (desculpem se a tradução não estiver grande coisa):
"Estou prestes a fazer o que as pessoas mais velhas têm feito durante toda a história: chamar os mais jovens que eu de preguiçosos, egoístas e superficiais. Mas eu tenho estudos! Eu tenho estatísticas! Eu tenho citações de académicos! Ao contrário dos meus pais, avós e bisavós, eu tenho provas."



Ora, muitos parabéns! Alguém que encontrou uma maneira de dizer "a minha geração é melhor que a vossa" com números e citações. Espero que haja ali um nível de  sarcasmo tão perfeito que até pareça que ele está a falar a sério.

Para ser justa, não sei se o artigo tem alguma reviravolta no final, à laia de filme de Hollywood, porque não o consegui ler todo. A verdade é que o subtítulo da capa anuncia "como eles vão salvar-nos". Parece que vamos de bestas a bestiais.

Com reviravolta ou não, confesso que não estava à espera de encontrar uma capa sensacionalista na Time. A sério... as receitas de publicidade estavam assim tão mázinhas? Precisavam assim tanto de vender? Ou de chamar a atenção? É que isso conseguiram, de certeza. Mas fiquei com sérias dúvidas relativamente à qualidade da revista, confesso. Para além de não ser muito agradável ver a minha geração ser chamada de preguiçosa e acusada de ser um fardo para os pais quando estamos afundados em dívidas de propinas e trabalhamos DE GRAÇA por causa de um sistema estupidamente desequilibrado e injusto que herdamos, também me entristece ver que o mercado tomou completamente conta dos meios de comunicação. Isso é que me preocupa. Chamem-nos o que quiserem, não vai deixar de ser idiota e ridículo. Mas daí fazerem disto capa de revista... Bem, estou preocupada. Com o "jornalismo" e com todos nós.

E, já agora, numa de "contra-informação", as respostas, mais ou menos furiosas, que circulam por aí.







O esquecimento não tem arte

Há uns tempos que este mecanismo intricado a que chamamos memória me fascina. Por vezes, é fantástico a lembrar coisas aleatórias e a fazer sorrir de uma piada parva que nos contaram já nem sabemos bem quando, mas também é capaz de armazenar os momentos mais idiotas, que não queremos lembrar de todo. Dão-nos uma máquina fantástica mas depois não nos dizem como é que a controlamos. Ainda por cima quando ela define a maior parte do nosso resultado, da pessoa inacabada que vamos arrastando todos os dias.

A propósito de lembrar e de ter de esquecer, li isto por aí. Em momentos destes, o mais que se pode pedir é paciência. Muita. Um lote inteiro dela, e mais outro para reserva.

"Vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'"

(eu a confirmar estereótipos femininos)

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É isso mesmo, às vezes é o que me apetece dizer.


Eu própria tento ser sempre uma pessoa simpática, mas admito que, de vez em quando, se torna extremamente complicado levar com a simpatia que não se pede, pela simples razão que levar com ela é o mesmo que levar uma chapada na cara.


E se feri susceptibilidades ("lá vêm elas... se não somos simpáticos, somos os piores animais à face da terra; se somos simpáticos, somos bestas na mesma"), aqui fica a sabedoria de mais uma fantástica personagem de Maggie Smith.


"I'm going back home to the West Coast"


Faz hoje um ano que tive uma das conversas mais sérias da minha vida.


É estranho dizê-lo, porque raramente nos lembramos das exactas conversas que nos mudam de algum modo. Falar parece ser tão natural que tendemos a não lhe dar a importância devida. Chegamos mesmo a separar as "palavras" dos "actos". A típica conversa do "falam, falam, mas não os vejo a fazer nada". Pois eu acho que, a vários níveis, falar é o acto mais difícil de sempre e pode requerer uma grande dose de coragem.


Lembrar-me do ano passado é quase como olhar para uma fotografia ou um postal de um sítio que é mesmo na rua ao lado da nossa, mas pelo qual, por acaso, nunca passamos no dia-a-dia. Está lá tão perto, mas num universo completamente diferente daquele em que vivemos. Definir estas fronteiras pode parecer muito artificial, mas fazemo-lo todos os dias, ao escolher que caminho percorrer, que pessoas olhar na rua, que relações decidimos valorizar e quais as que mantemos a uma distância segura, sem fazer absolutamente nada a não ser lidar com as coincidências. Estas cercas que erguemos, os nossos limites de "território", apesar de pouco fixas, são o nosso mecanismo de defesa mais eficiente e mais ingrato. Basta abrir a cancela uma vez e alguém fazer asneira para nunca mais querermos vizinhos no quintal.


E depois há a ideia, essa sim, fácil de dizer, difícil de concretizar, de que temos de partir para a acção, temos de arriscar, temos de tentar porque, se não tentarmos, os "e ses" ficam a pairar-nos na cabeça para sempre. Como um dia alguém me lembrou e Victor Hugo, n'Os Miseráveis, "vende" com tanta convicção.


"Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta.
Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?»
Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura.
Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos."


Identifico-me com a perspectiva, mas também acho um pouco desleal dizer que é mais fácil correr perigos do que viver com as incertezas. Por mais que nos convençamos do contrário, todos os dias vivemos disfarçados no conforto. Não optamos por caminhos diferentes todos os dias para ir para o trabalho, não experimentamos estilos distintos a cada mês do ano... não nos é natural procurar o mais arriscado porque estamos armados com um mecanismo de sobrevivência, físico e emocional. Temos a tendência para procurar sempre algo que nos seja familiar e que acrescente algo vantajoso ao que sabemos, ou julgamos saber.


Seja qual for o caso, e seja qual for a decisão - porque o estado de inércia também é consequência de uma decisão - aprendi que há coisas que ninguém pode fazer por mim, e uma delas é proteger-me. Ninguém me vai proteger mais do que eu me protegerei a mim própria, nem eu alguma vez conseguirei ser a "cerca" de alguém, porque não está ao meu alcance. Foi preciso percorrer um longo caminho para entender isto, e lutar contra alguns dos meus mais poderosos instintos, para entender que nunca vou poder fazer mais do que aliviar circunstâncias, fortalecer as defesas dos outros, não deixar que caiam, impedir que alguma coisa os derrube. Mas não posso viver por ninguém, e ninguém pode viver por mim, ou entrar em mim, ou extrair de mim algo que me magoou, magoa, talvez continue a magoar, talvez nunca sare, talvez nunca seja suposto sarar.


E não faz mal. Não faz mal estarmos sozinhos com estas sensações, não faz mal sentirmo-nos magoados. Não é vergonha nenhuma, nem é fardo para ninguém a não ser para nós próprios, se percebermos onde é justo desejar a linha. E por mais que ergamos as cercas sozinhos, por alguma razão deixamos alguém entrar. Mesmo que alguém derrube um vaso, ou estrague as miosótis que plantei no jardim com tanto carinho, isso faz parte. Talvez não seja fácil plantá-las novamente e esperar que o desastre não se repita, mas acredito também que contemplar um jardim vazio é bem mais devastador.


E por mais fechada que esteja a cancela por agora, com trancas e tudo ("casa roubada, trancas à porta"), há sempre as conversas de janela e as cartas no correio. Um dia, quando me esquecer das trancas e o deixar aberto, será porque decidi que sei exactamente quem deixar entrar.


E as miosótis que se aguentem, que a Primavera tarda a chegar, mas volta sempre.






St. Patrick's Day - John Mayer

Assim sem me aperceber, muito de mansinho, o John Mayer foi-me conquistando sem aviso. Se calhar venho muito tarde já, mas não estou muito preocupada com isso.

Ontem, antes de adormecer, pus-me a ouvir esta música, que não me tinha saído da cabeça o dia inteiro e, de repente, tive um sentimento muito estranho, uma espécie de catarse e de epifania ao mesmo tempo. Sim, consegui adormecer mesmo depois disto.

Subitamente, senti uma onda de optimismo que não sei explicar, como se algo de muito bom estivesse para acontecer. É uma parvoíce mas, como não ando propriamente a dançar de felicidade e realização nos últimos tempos, decidi agarrar a sensação com todas as minhas forças. Foi quase como um sonho lúcido, uma miragem. Não vi as coisas à minha frente, mas senti que ia ficar tudo bem. Não sei explicar... Por momentos, tive saudades do futuro. Isso foi o quão claro tudo me pareceu, quão seguro e desafiante ao mesmo tempo, quão diferente e quão melhor.

Talvez alguma coisa nos acordes da St. Patrick's Day tenha acordado alguma parte adormecida do meu cérebro, para me lembrar que não me faltam sonhos, e que não me serve de nada acomodar-me à ideia de que o universo tem um humor negro que decidiu aplicar em mim. Pela primeira vez no ano, e em alguns anos, senti que não perdi absolutamente nada, e que não o vou perder sem uma luta renhida. E orgulho-me em dizer que, desta vez, a pessoa que não me posso dar ao luxo de perder sou eu própria.