Viver não basta

23:47

Tenho de confessar que invejo as pessoas que vivem vidas normais e preenchidas, e isso lhes basta.

Quando estava na residência, com as freiras, andava sempre a procura de sinais que me indicassem a razão por que tinham escolhido aquele caminho e abdicado de uma série de coisas por isso, mas nunca os encontrei. Todas elas me pareciam viver numa paz interior invulgar e lidar com as adversidades de uma maneira estranhamente serena. Todos os dias sorriam, tinham sempre uma palavra querida para nos dirigir e reparavam em pequenos detalhes engraçados acerca de nós, o que nos fazia sentir protegidas, de certo modo, porque nunca estávamos realmente sozinhas. Como é que elas o fazem, 365 dias por ano, 24 horas por dia é, para mim, um mistério.

Penso o mesmo acerca daqueles casais que vejo passar na rua, com os filhos pela mão. Mesmo que não transpareçam a mesma serenidade, é como se conseguisse ver nos seus gestos que todos os dias ganham sentido porque têm algo por que lutar, e isso pode ser mais poderoso do que qualquer outra coisa. Os instintos protectores dos pais e a necessidade de aprovação dos filhos é a base de todas as relações humanas, na minha opinião. Por isso, mesmo que haja lacunas, é-me impossível ficar indiferente a essa força, a essa cola que os mantém juntos. Sim, muitas vezes isto não dá certo, e mais vale cada um seguir o seu caminho do que fingir que se é o que não se consegue ser. Mas houve um momento em que esse equilíbrio foi perfeito, e isso bastava.

Invejo-os, não por terem o que eu não tenho mas por quererem o que eu não quero.

Gostava que estas coisas me bastassem. Que continuasse a acreditar num Deus que olha por mim, que quisesse ter uma família grande e próspera. De ter um emprego estável, fazer viagens ao campo nas férias, organizar jantaradas, conhecer os vizinhos, mandar postais aos primos, mesmo os mais afastados, no Natal, ter um partido político, fazer os bolos de anos dos meus filhos e dar festinhas de aniversário, ter um cão, um gato, um peixinho dourado e um alpendre com uma rede.

Mas isto não me basta...

Não, eu não quero só uma família. Quero casar-me por amor, se é que quero casar; quero ter um emprego criativo e estimulante, não um que me dê estabilidade; quero defender ideias e pessoas, não partidos; só quero férias e jantaradas com família e amigos, não com vizinhos que não conheço bem e com os quais não tenho nada em comum; quero um lar, não uma casa. Quero mudar a minha parcela de mundo. Viver, ou sobreviver, não me basta. Eu quero existir! Quero ser alguém!

Então, por que invejo eu os outros?

Talvez porque eles alcançaram o que queriam... estava ao seu alcance. No final de contas, eles vivem fora das suas cabeças e conseguem explicar o que fizeram, o que ainda vão fazer e por que o fazem. A mim, se me perguntam o que quero, emudeço. Não sei explicar. Talvez nem saiba bem o que é, materialmente. Nem sei bem como lá chegar.

O mais triste de tudo seria que, no emaranhado de exigências que ponho a mim própria, me esquecesse de viver.

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Segue o Capítulo 3!